Depois do Filme

Corinthians, 100 anos de povo

29, Dezembro 2009 · Deixe um comentário

Para quem freqüenta os blogs do Filipe e do Cláudio, vou só chover no molhado. Para quem não freqüenta, é uma oportunidade de ter contato com temas grandiosos de maneira diluída – uma espécie de Mundo de Sofia do Corinthianismo…

Em setembro de 1910, no bairro do Bom Retiro, foi fundado o Time do Povo. Nessa época, o futebol era um fenômeno popular nas várzeas paulistanas e os clubes de elite tinham sua liga própria. Evidentemente, seus narizes empinados torceram-se (Oh! cabelos nas ventas!) à notícia de que o povo ousava fundar um clube e, nos anos seguintes, além do nariz, o Time do Povo torceu também seus pescoços. Outro time paulistano com um pé na cozinha e outro na cantina também teve muito destaque e, frente a tal quadro indecoroso, a elite paulistana resolveu catar os cacos de seus clubes e fundar outro, sob as bênçãos da imprensa da época, pertencente a essa mesma elite.

Os anos passaram e cada time seguiu sua trajetória. O Corinthians, dominado por figuras nefastas, passou mais de duas décadas sem levantar uma taça e viu sua torcida crescer sem parar, protagonizando já perto do fim do calvário a Invasão Corinthiana (para quem não sabe, aproximadamente 70 mil pessoas pegaram a Dutra para ver a semi-final do Brasileiro). Até hoje não ouvi uma explicação racional para tal crescimento – a meu ver, exatamente porque não há razão, é só paixão, identificação. É curioso e mesmo difícil pensar nesse fenômeno à luz de uma sociedade que vende o hedonismo mais burro e o prazer mais imediato como os grandes objetivos da vida. Mas se há quem vote no candidato que vai ganhar porque vai ganhar, como não compreender quem torça para o time que ganha mais títulos? Faz sentido. É sórdido, vazio, mas faz sentido. E está incontornavelmente ligado ao sistema econômico que nos dita as  condições de vida: o que importa é ser winner, é ter dinheiro, mulheres bonitas e de sorriso branco. Poucos não trocariam sua sombra por um saco sem fim de dinheiro.

No caso do futebol brasileiro, a partir dos anos 90, a rivalidade do futebol paulista foi acirrada por um torneio de fora de SP, a Libertadores da América. Até então, esse torneio não era muito valorizado, fosse pelo histórico baixo nível técnico, fosse pelo fato de nenhum clube paulistano tê-lo ganhado – o fato é que em 92 ele era transmitido pela Rede OM (lembram?). Aí, em 99, o grande rival, depois de eliminar o Timão, ganhou a Libertadores. E o Corinthians, o time que não duraria um inverno, o time de maior torcida na maior cidade do hemisfério, o Time do Povo, passou a ter sua grandeza relativizada dentro do repetitivo senso comum futebolístico, como se tal grandeza pudesse ser contestada por quem quer que fosse.

Desde então, toda vez que ganhamos um Brasileiro ou uma Copa do Brasil, antes mesmo de podermos celebrar, vem algum repetidor de idéias sem autor buzinar nos nossos ouvidos que o Corinthians tem a obrigação de ganhar a Libertadores da América.

Em 2009, o gigante se levantou de triste queda. Fez talvez a maior contratação da história do futebol brasileiro, ganhou o torneio local (contra todos os maiores rivais) de forma invicta e foi campeão do Brasil com brilho. E agora, às vésperas do centenário do glorioso Sport Club Corinthians Paulista, já se ouve o discursinho de obrigação na Libertadores… Fosse só senso comum de adversário querendo provocar, não tinha importância. Mas a corinthianada alienada compra o discurso e isso pode ser muito prejudicial (fico lembrando da pressão sobre o time em 2003 e 2006).

Se o anticorinthianismo é tão antigo quanto o Corinthians – e também durou bem mais de um inverno -, é preciso ter em mente que a efeméride é dos adversários também e que eles estão loucos para no ver por baixo. E aí é preciso lembrar que somos corinthianos e a próxima coleção primavera-verão não vai mudar isso. É preciso lembrar que – como diz muito bem o Filipe – a única obrigação é honrar a camisa. Honrar a camisa vestida e desenhada pelo povo. Honrar a camisa que tanta gente começou a vestir nos 22 anos sem título. Honrar a camisa do time que subverteu o futebol paulista, a camisa que se recusou a aceitar o futebol como esporte burguês, tornando o principal time burguês da cidade um freguês histórico.

É essa história que temos que celebrar em 2010. É essa história que temos que defender em 2010. Se, de quebra, conseguirmos ganhar alguma coisa, ótimo. Se não conseguirmos, lembremos de quem gritou apaixonadamente por 20 anos com a boca amarga. Lembremos de quem construiu a Fazendinha no tempo livre. Lembremos de quem atravessou o Morumbi de joelhos em 77. A obrigação é suar sangue em nome do Corinthians. O resto é torcida. Vai, torcida Fiel. Saravá, São Jorge, ele vai nos ajudar!

Feliz 2010.

E quem não for corinthiano vá pra puta que o pariu!

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paisagem paulistana

13, Dezembro 2009 · Deixe um comentário

Outro estudo em baixa resolução. Gosto do som ambiente e viva o Zoviet France!

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Estudo em baixa resolução

29, Novembro 2009 · 4 Comentários

Gostei de algumas imagens que gravei recentemente com meu telefone, apesar da baixa qualidade ou por causa dela. Aí resolvi fazer outras e editar depois. A procura por música em território desconhecido atrasou um pouco o processo, mas, enfim, taí a primeira tentativa, uma brincadeira com texturas e a música ‘Ions Collis’ (ta errado, no vídeo), do Zoviet France.

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Yes, nós somos racistas

16, Novembro 2009 · Deixe um comentário

Alguém tinha que fazer isso! Talvez pudessem ter feito melhor, mas ta valendo.

 

PS: para quem quiser assinar o manifesto: http://www.circovoador.com.br/novasdocirco.htm

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O pior filme que já vi?

28, Setembro 2009 · Deixe um comentário

Baseado no livro Matar ou morrer, do deputado estadual e ex-comandante da Rota, Conte Lopes, Rota Comando conta a história de alguns policiais do batalhão de elite da Polícia Militar paulista, conhecido, temido e até por alguns admirado por sua violência – fixada no imaginário popular por ditos escabrosos como “Deus põe no mundo, a Rota apaga”.

O filme começa com um jovem policial baleado sendo levado de maca pelos corredores de um hospital enquanto ouvimos seus pensamentos em over, que conduzirão toda a história (qualquer semelhança com O pagamento final não parece ser mera coincidência) – ele é o bom pai de família que será morto por bandidos, necessário no esquema do filme . Dois bandidos vêm do Rio para SP para tentar se estabelecer com a ajuda de um terceiro: essa é a tênue linha narrativa, que será disposta paralelamente às ações dos policiais. Tanto de um lado como de outro, não chegamos a ter uma trama e sim uma sucessão de acontecimentos que podem ou não ter relação com os demais. Os personagens principais são totalmente planos, caricatos e esquemáticos. Os secundários aparecem e somem. Os diálogos são constrangedores. As atuações, vergonhosas.

O filme parece buscar ser um institucional das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, mas (creio que mais por falta de intimidade com a linguagem cinematográfica do que por gosto) explicita de maneira assustadoramente crua o modus operandi de atirar primeiro e perguntar depois e a amoralidade na atuação do batalhão, seja batendo em criminosos que não apresentavam resistência, seja ao comentar em over que “não interessa como você virá na nossa viatura, sentado ou deitado”. Acredito que o filme venha na esteira de Tropa de Elite, é meio uma tentativa BO (baixo orçamento) paulista de imitar o enorme sucesso de bilheteria. Mas, embora eu não seja fã do filme de José Padilha, avalio que ele não merece entrar em pauta ao tratar-se de Rota Comando simplesmente por aquele ser um filme e esse uma mera tentativa. Ao falarmos de Rota Comando (se alguém fizer questão dse falar de novo), merecemos lembrar de Cama de Gato e outras vergonhas alheias.

Avaliação: literalmente trash. Amador. Experiência um pouco menos pior do que levar enquadro da Rota.

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Quando o controle remoto é o tambor de um revólver apontado pra sua têmpora

13, Agosto 2009 · Deixe um comentário

O zapping niilista na TV aberta promove experiências espantosas. Acabo de ver um desenho animado evangélico com traço de quem leu muita Mônica, tosquinho  e de animação menos animada do que, digamos, He-Man. Só mexe a boca e os braços. Como não poderia deixar de ser, uma liçãozinha de moral sobre um garoto evangélico, magrinho, de óculos, zuado pelos fortões, que, inspirado pelas palavras de seu amigo sobre o rei José e seus irmãos, perdoa o algoz e o ajuda. Contra a polícia, diga-se.

Midinho, o pequeno missionário. No programa do RR Soares…

Sem mais palavras. http://www.youtube.com/watch?v=wAJ-UAA5ito

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Em busca do tempo perdido

30, Julho 2009 · 3 Comentários

Pouco antes dos vinte minutos do segundo tempo, o jogador, malandro, simula uma falta na entrada da área e ludibria o juiz, que erra feio e marca. O coração preto e branco do torcedor se aperta temendo um estranho déja vu invertido.

 

O goleiro, a barreira, a bola. O sete corre e seu pé a toca com leveza e intimidade. Poesia. Flecha do arqueiro zen em curva barroca, vai na mosca.

 

Leveza e intimidade. O toque do pé de Marcelinho na bola é um ato de amor. É o toque da mão da amante, é um beijo rápido antes de uma separação breve e prazerosa. Ela voa para o gol, ele corre para o lada do campo e se ajoelha.

 

A Fiel existe para estar com o Corinthians, o Corinthians é a Fiel, que grita, comemora o gol de Chicão e, no contexto do jogo, até se conforma com o empate.

 

Mas de certo modo não se conforma com aquela bola perfeita no ângulo, a mesma tantas e tantas vezes celebrada pela torcida que ontem a lamentou. Não por motivos objetivos e imediatos, dois pontos ou um erro de arbitragem. Mas porque ela traz em si a passagem do tempo, a impossibilidade humana de apreender e congelar um sentimento, um fragmento de vida, um instante, e, de quebra, a impossibilidade de apagar as marcas que esses nos deixam.

 

Para quem desdenha do futebol como fenômeno cultural, tenho a dizer que Marcelinho Carioca foi Marcel Proust na noite de 29 de julho de 2009.

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Fumaça de cigarro não pode…

15, Julho 2009 · Deixe um comentário

Nove entre dez paulistanos (eu incluído) têm um certo sentimento de pesar ao olhar pela janela do carro na Marginal Tietê. A folclórica via expressa (nossa praia em musiquinhas provocativas cariocas) onde fica, entre coisas muito menos importantes, o Corinthians é um lugar um tanto desolado e nunca desconfiei que pudesse piorar. Mais eis que decidiram (vamos deixar o sujeito indefinido) arrancar as árvores do caminho e meter mais pistas para os motoristas levarem seus brinquedinhos de 600 toneladas para lá e para cá. O vídeo abaixo é meio longo mas é instrutivo. Como diria um bom corinthiano, sorria, São Paulo.

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Fiodor explica

13, Julho 2009 · Deixe um comentário

Quando foi preso e mandado para a Sibéria, Dostoievski escrevia o romance Nietochka Niezvanova. Ao voltar da Sibéria, finalizou-o sem concluir. Para os leitores habituais de romances oitocentistas é um anticlímax: a história nos abandona pouco depois de 200 páginas. Para os grandes fãs do gênero, então, é uma verdadeira crueldade…

Nietochka é Ana, nossa narradora, que no início do livro é uma menina pequena e pobre, que acaba sendo adotada por uma família nobre e nos conta sua vida até uns 17 anos, quando o livro termina bruscamente.

Se me permitem um anacronismo, chama a atenção o forte caráter psicanalítico do romance, manifestado na  descrição da criação de traumas infantis quanto – até mais impressionante – na descrição erótica dos sentimentos e atos infantis, tanto na relação de Nietochka com o padrasto como na relação com a princesa Kátia, de sua idade. Enfim, se é público e notório que o autor russo antecipa o super-homem de Nietzsche em ‘Crime e Castigo’, é menos sabido que já havia antecipado o Dr. Freud em Nietochka Niezvanova.

Alguém disse certa vez falando sobre uma dessas figuras geniais (acho que era Glauber) que o gênio não pensa à frente do seu tempo e sim percebe primeiro que os outros o que está acontecendo… Dostoievski se encaixa perfeitamente na descrição.

Must read!!!

Nietochka Niezvanova, Editora 34, tradução de Boris Schnaiderman

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Inter? Que Inter?

2, Julho 2009 · Deixe um comentário

chorolado

Presidente de clube médio superestimado e produtor videográfico superestimado comemora o título do Corinthians… É festa na favela!!!

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