Baseado no livro Matar ou morrer, do deputado estadual e ex-comandante da Rota, Conte Lopes, Rota Comando conta a história de alguns policiais do batalhão de elite da Polícia Militar paulista, conhecido, temido e até por alguns admirado por sua violência – fixada no imaginário popular por ditos escabrosos como “Deus põe no mundo, a Rota apaga”.
O filme começa com um jovem policial baleado sendo levado de maca pelos corredores de um hospital enquanto ouvimos seus pensamentos em over, que conduzirão toda a história (qualquer semelhança com O pagamento final não parece ser mera coincidência) – ele é o bom pai de família que será morto por bandidos, necessário no esquema do filme . Dois bandidos vêm do Rio para SP para tentar se estabelecer com a ajuda de um terceiro: essa é a tênue linha narrativa, que será disposta paralelamente às ações dos policiais. Tanto de um lado como de outro, não chegamos a ter uma trama e sim uma sucessão de acontecimentos que podem ou não ter relação com os demais. Os personagens principais são totalmente planos, caricatos e esquemáticos. Os secundários aparecem e somem. Os diálogos são constrangedores. As atuações, vergonhosas.
O filme parece buscar ser um institucional das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, mas (creio que mais por falta de intimidade com a linguagem cinematográfica do que por gosto) explicita de maneira assustadoramente crua o modus operandi de atirar primeiro e perguntar depois e a amoralidade na atuação do batalhão, seja batendo em criminosos que não apresentavam resistência, seja ao comentar em over que “não interessa como você virá na nossa viatura, sentado ou deitado”. Acredito que o filme venha na esteira de Tropa de Elite, é meio uma tentativa BO (baixo orçamento) paulista de imitar o enorme sucesso de bilheteria. Mas, embora eu não seja fã do filme de José Padilha, avalio que ele não merece entrar em pauta ao tratar-se de Rota Comando simplesmente por aquele ser um filme e esse uma mera tentativa. Ao falarmos de Rota Comando (se alguém fizer questão dse falar de novo), merecemos lembrar de Cama de Gato e outras vergonhas alheias.
Avaliação: literalmente trash. Amador. Experiência um pouco menos pior do que levar enquadro da Rota.
O zapping niilista na TV aberta promove experiências espantosas. Acabo de ver um desenho animado evangélico com traço de quem leu muita Mônica, tosquinho e de animação menos animada do que, digamos, He-Man. Só mexe a boca e os braços. Como não poderia deixar de ser, uma liçãozinha de moral sobre um garoto evangélico, magrinho, de óculos, zuado pelos fortões, que, inspirado pelas palavras de seu amigo sobre o rei José e seus irmãos, perdoa o algoz e o ajuda. Contra a polícia, diga-se.
Midinho, o pequeno missionário. No programa do RR Soares…
Pouco antes dos vinte minutos do segundo tempo, o jogador, malandro, simula uma falta na entrada da área e ludibria o juiz, que erra feio e marca. O coração preto e branco do torcedor se aperta temendo um estranho déja vu invertido.
O goleiro, a barreira, a bola. O sete corre e seu pé a toca com leveza e intimidade. Poesia. Flecha do arqueiro zen em curva barroca, vai na mosca.
Leveza e intimidade. O toque do pé de Marcelinho na bola é um ato de amor. É o toque da mão da amante, é um beijo rápido antes de uma separação breve e prazerosa. Ela voa para o gol, ele corre para o lada do campo e se ajoelha.
A Fiel existe para estar com o Corinthians, o Corinthians é a Fiel, que grita, comemora o gol de Chicão e, no contexto do jogo, até se conforma com o empate.
Mas de certo modo não se conforma com aquela bola perfeita no ângulo, a mesma tantas e tantas vezes celebrada pela torcida que ontem a lamentou. Não por motivos objetivos e imediatos, dois pontos ou um erro de arbitragem. Mas porque ela traz em si a passagem do tempo, a impossibilidade humana de apreender e congelar um sentimento, um fragmento de vida, um instante, e, de quebra, a impossibilidade de apagar as marcas que esses nos deixam.
Para quem desdenha do futebol como fenômeno cultural, tenho a dizer que Marcelinho Carioca foi Marcel Proust na noite de 29 de julho de 2009.
Nove entre dez paulistanos (eu incluído) têm um certo sentimento de pesar ao olhar pela janela do carro na Marginal Tietê. A folclórica via expressa (nossa praia em musiquinhas provocativas cariocas) onde fica, entre coisas muito menos importantes, o Corinthians é um lugar um tanto desolado e nunca desconfiei que pudesse piorar. Mais eis que decidiram (vamos deixar o sujeito indefinido) arrancar as árvores do caminho e meter mais pistas para os motoristas levarem seus brinquedinhos de 600 toneladas para lá e para cá. O vídeo abaixo é meio longo mas é instrutivo. Como diria um bom corinthiano, sorria, São Paulo.
Quando foi preso e mandado para a Sibéria, Dostoievski escrevia o romance Nietochka Niezvanova. Ao voltar da Sibéria, finalizou-o sem concluir. Para os leitores habituais de romances oitocentistas é um anticlímax: a história nos abandona pouco depois de 200 páginas. Para os grandes fãs do gênero, então, é uma verdadeira crueldade…
Nietochka é Ana, nossa narradora, que no início do livro é uma menina pequena e pobre, que acaba sendo adotada por uma família nobre e nos conta sua vida até uns 17 anos, quando o livro termina bruscamente.
Se me permitem um anacronismo, chama a atenção o forte caráter psicanalítico do romance, manifestado na descrição da criação de traumas infantis quanto – até mais impressionante – na descrição erótica dos sentimentos e atos infantis, tanto na relação de Nietochka com o padrasto como na relação com a princesa Kátia, de sua idade. Enfim, se é público e notório que o autor russo antecipa o super-homem de Nietzsche em ‘Crime e Castigo’, é menos sabido que já havia antecipado o Dr. Freud em Nietochka Niezvanova.
Alguém disse certa vez falando sobre uma dessas figuras geniais (acho que era Glauber) que o gênio não pensa à frente do seu tempo e sim percebe primeiro que os outros o que está acontecendo… Dostoievski se encaixa perfeitamente na descrição.
Must read!!!
Nietochka Niezvanova, Editora 34, tradução de Boris Schnaiderman
Saiu-se com a seguinte pérola: “Eu particularmente tenho horror a coxinha de galinha (…), pelo meu gosto, eu proibiria tudoisso“.
Já deu pra notar, governador, que pelo seu gosto você proibiria tudo… Mas você não é pai da gente e a gente ta cagando e andando para o seu gosto. Afinal isso é um estado ou a casa do Zé Serra? Serei eu o único paulista que não acha legal ser tratado como filho do Serra? Tipo, minha mãe não gosta de abóbora e por isso só fui comer abóbora depois de adulto. Agora, o Serra não gosta de coxinha (ou cigarro ou vinho químico) e acha que isso basta pra proibir o consumo em todo o estado… Pelo gosto dele, imagino, votar no PT ou no PSoL deve ser pior que coxinha com vinho químico seguida de um cigarrinho… E aí, Mr. Governor, vai proibir também?