Para quem freqüenta os blogs do Filipe e do Cláudio, vou só chover no molhado. Para quem não freqüenta, é uma oportunidade de ter contato com temas grandiosos de maneira diluída – uma espécie de Mundo de Sofia do Corinthianismo…
Em setembro de 1910, no bairro do Bom Retiro, foi fundado o Time do Povo. Nessa época, o futebol era um fenômeno popular nas várzeas paulistanas e os clubes de elite tinham sua liga própria. Evidentemente, seus narizes empinados torceram-se (Oh! cabelos nas ventas!) à notícia de que o povo ousava fundar um clube e, nos anos seguintes, além do nariz, o Time do Povo torceu também seus pescoços. Outro time paulistano com um pé na cozinha e outro na cantina também teve muito destaque e, frente a tal quadro indecoroso, a elite paulistana resolveu catar os cacos de seus clubes e fundar outro, sob as bênçãos da imprensa da época, pertencente a essa mesma elite.
Os anos passaram e cada time seguiu sua trajetória. O Corinthians, dominado por figuras nefastas, passou mais de duas décadas sem levantar uma taça e viu sua torcida crescer sem parar, protagonizando já perto do fim do calvário a Invasão Corinthiana (para quem não sabe, aproximadamente 70 mil pessoas pegaram a Dutra para ver a semi-final do Brasileiro). Até hoje não ouvi uma explicação racional para tal crescimento – a meu ver, exatamente porque não há razão, é só paixão, identificação. É curioso e mesmo difícil pensar nesse fenômeno à luz de uma sociedade que vende o hedonismo mais burro e o prazer mais imediato como os grandes objetivos da vida. Mas se há quem vote no candidato que vai ganhar porque vai ganhar, como não compreender quem torça para o time que ganha mais títulos? Faz sentido. É sórdido, vazio, mas faz sentido. E está incontornavelmente ligado ao sistema econômico que nos dita as condições de vida: o que importa é ser winner, é ter dinheiro, mulheres bonitas e de sorriso branco. Poucos não trocariam sua sombra por um saco sem fim de dinheiro.
No caso do futebol brasileiro, a partir dos anos 90, a rivalidade do futebol paulista foi acirrada por um torneio de fora de SP, a Libertadores da América. Até então, esse torneio não era muito valorizado, fosse pelo histórico baixo nível técnico, fosse pelo fato de nenhum clube paulistano tê-lo ganhado – o fato é que em 92 ele era transmitido pela Rede OM (lembram?). Aí, em 99, o grande rival, depois de eliminar o Timão, ganhou a Libertadores. E o Corinthians, o time que não duraria um inverno, o time de maior torcida na maior cidade do hemisfério, o Time do Povo, passou a ter sua grandeza relativizada dentro do repetitivo senso comum futebolístico, como se tal grandeza pudesse ser contestada por quem quer que fosse.
Desde então, toda vez que ganhamos um Brasileiro ou uma Copa do Brasil, antes mesmo de podermos celebrar, vem algum repetidor de idéias sem autor buzinar nos nossos ouvidos que o Corinthians tem a obrigação de ganhar a Libertadores da América.
Em 2009, o gigante se levantou de triste queda. Fez talvez a maior contratação da história do futebol brasileiro, ganhou o torneio local (contra todos os maiores rivais) de forma invicta e foi campeão do Brasil com brilho. E agora, às vésperas do centenário do glorioso Sport Club Corinthians Paulista, já se ouve o discursinho de obrigação na Libertadores… Fosse só senso comum de adversário querendo provocar, não tinha importância. Mas a corinthianada alienada compra o discurso e isso pode ser muito prejudicial (fico lembrando da pressão sobre o time em 2003 e 2006).
Se o anticorinthianismo é tão antigo quanto o Corinthians – e também durou bem mais de um inverno -, é preciso ter em mente que a efeméride é dos adversários também e que eles estão loucos para no ver por baixo. E aí é preciso lembrar que somos corinthianos e a próxima coleção primavera-verão não vai mudar isso. É preciso lembrar que – como diz muito bem o Filipe – a única obrigação é honrar a camisa. Honrar a camisa vestida e desenhada pelo povo. Honrar a camisa que tanta gente começou a vestir nos 22 anos sem título. Honrar a camisa do time que subverteu o futebol paulista, a camisa que se recusou a aceitar o futebol como esporte burguês, tornando o principal time burguês da cidade um freguês histórico.
É essa história que temos que celebrar em 2010. É essa história que temos que defender em 2010. Se, de quebra, conseguirmos ganhar alguma coisa, ótimo. Se não conseguirmos, lembremos de quem gritou apaixonadamente por 20 anos com a boca amarga. Lembremos de quem construiu a Fazendinha no tempo livre. Lembremos de quem atravessou o Morumbi de joelhos em 77. A obrigação é suar sangue em nome do Corinthians. O resto é torcida. Vai, torcida Fiel. Saravá, São Jorge, ele vai nos ajudar!
Feliz 2010.
E quem não for corinthiano vá pra puta que o pariu!

