Certamente instigado por Brooklyn Follies, acabo de pensar num retiro para velhos maus poetas.
Não precisam ser realmente velhos, mas sentirem sua poesia cansada. Cansada de tentar em vão comunicar o incomunicável tergiversando sobre a incomunicabilidade do ser numa noite silenciosa mas com os ruídos perenes do centro da cidade. Cansada de desfilar clichês sobre a solidão primária e incontornável de um ser autônomo e pensante.
Nesse lugar, toda dor, dúvida e alegria que não encontraram sua forma apropriada seriam tratadas como dor, dúvida e alegria e não como fracasso formal e artístico. Livres do julgamento ferino de leitores e protegidos da impaciência de não leitores, os maus poetas andariam livres pelo campo, declamando seus versos mal ajambrados, suas rimas pobres, suas rimas ricas de mau gosto, suas farsas involuntárias e cópias inconscientes e sem charme.
Três vezes ao dia, assim como todo mundo, os maus poetas precisam comer. Isso aconteceria no refeitório, onde além da comida de bandejão, se alimentariam de poesia nas conversas com outros maus poetas, em geral centradas nas obras de bons poetas. Afinal, assim como todo mundo, os maus poetas gostam de boa poesia e certamente não fazem por mal o que conseguem fazer. É o que conseguem. Livres, poderiam pontuar toda e qualquer conversação com “alguns versos de minha lavra”, o que sempre tornaria as refeições e qualquer troca de idéias longuíssimas, e a única regra a que precisariam obedecer (afora as leis do Estado) é jamais demonstrar desconfiança ou desdém antes, durante ou depois dos versos da lavra de qualquer colega do retiro. Poderia, sim, conversar abertamente sobre a poesia, criticando se fosse o caso, mas nunca abandonando o humilde patamar de mau poeta.
Algumas espécies de acomodações estariam disponíveis: quartos individuais (“um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é”), quartos de casal (“Vivamos, minha Lésbia, amemos sempre”) e quartos divididos com duas (“Eis que ressurge noutro o velho amigo”), três ou quatro camas (“Presa nos elos de uma só cadeia, A multidão faminta cambaleia, E chora e dança ali!”). Nos banheiros, um por quarto, uma estante de livros que absolutamente não devem ser usados para qualquer finalidade que não as de leitura e eventual inspiração. E, claro, canetas para que a poesia ocupe livremente as paredes enquanto outra obra de pouca repercussão (nesse caso, é o ideal) vem ao mundo.
As tarefas domésticas seriam divididas de maneira prática e igualitária entre os poetas, levando-se em consideração as habilidades de cada um (pode-se perfeitamente fazer maus poemas e boas almôndegas, o que eventualmente livrará o cozinheiro de, por exemplo, repercutir a obra do parágrafo anterior, que ajudou a criar).
O nome do retiro poderia ser o de algum mau poeta célebre, mas isso seria desdenhoso e injusto. Primeiro porque ali seria o lugar dos verdadeiros maus poetas, os maus poetas sem sucesso e conscientes de sua condição. Ninguém seria levado à força, acreditando que seus versos têm valor para a sociedade. Segundo porque a homenagem seria uma ironia e o retiro não poderia fazer piada com a falta de talento poético de ninguém, por definição. Chegar-se-ia portanto à conclusão de homenagear um poeta grandioso: Camões, Dante, Catulo. Mas o escolhido seria mesmo Fernando Pessoa e aquele, o lugar de quem nunca conheceu quem tivesse tomado porrada.
E assim viveriam os maus poetas, em sua utopia enfadonha. Para além dos limites do retiro, ninguém daria a menor bola e seguiria tocando a vida, este longo mau poema, cheio de belas intenções e sem a forma adequada.