ou tentativa de uma geografia urbana sentimental, cultural, social e econômica
Uso já há algum tempo o termo Grande Pinheiros para designar um fenômeno paulistano, que já deve ter sido notado e descrito várias vezes. Tirei o termo da cabeça, mas é possível que ele mesmo já existisse, embora o google não seja muito esclarecedor sobre isso.
Vim a São Paulo pela primeira vez em 1988, com meu pai, ficamos hospedados na casa de sua namorada, na rua Bela Cintra. Tenho algumas lembranças da região da Paulista, da feirinha no térreo de onde é hoje o edifício São Luiz Gonzaga. A rua Augusta, onde vi um cara roubar uma correntinha de uma moça. Nunca voltei a ver esse crime e nunca voltei a ver um roubo na Augusta, onde quase tudo se vê. Voltei a visitar com minha mãe e minhas irmãs, hospedados na rua Cotoxó. Na terceira vez, breve hospedagem no BNH da Vila Madalena e por fim a mudança para o Sumaré, onde vivi 18 anos, verdadeiro ponto de partida desta especulação.
De um topo de ladeira na rua Apinagés, saía todos os dias para o Butantã, outro lado do rio. Eu era dos primeiros a serem pegos pelo ônibus escolar e descíamos rumo à Vila Beatriz (Isabel de Castela), Vila Madalena (Delfina), Pinheiros (várias) e enfim Butantã, na escola cheia de árvores, um bananal, um atêliê com cheiro de argila e tinta, criançada nascida no fim da ditadura, filha de pais mais “cabeça aberta” das classes média e média alta paulistanas. Volta no horário do rush, grandes engarrafamentos na Eusébio Matoso, na Rebouças, o neon do Unibanco (banco… Uni co), o Rio Pinheiros.
Em 1993, outra escola com forte ênfase nas humanas, mas muito menos roots, onde havia primário, ginásio e colegial, quadra com traves, rede e pintura no chão, cantina, todo um mundo civilizado de cimento e mercadorias. Também por ser localizada no Alto de Pinheiros, do lado de cá do rio, o público era mais eclético, embora o clima reinante fosse também badabauê e mais pra esquerda que pra direita. E o ecletismo, claro, ia só até o ponto de poder ou não pagar a cara mensalidade (ou se comprometer a pagar mesmo não podendo – valeu, mãe!).
Em 1997, outra escola no chamado Alto de Pinheiros, embora esta fique no nível do rio, num enorme e fabuloso terreno perto da Praça Panamericana. Aqui o negócio era bem diferente, uma escola tradicional, com representantes da alta elite paulistana, sobrenomes pomposos, um contexto de direita civilizada e mais alunos que as duas outras escolas somadas. Aos 15 anos, a vida já era uma festa e os encontros com alunos de outras escolas de classe média alta da região de Pinheiros e adjacências eram freqüentes. A Vila Madalena, então com seus botecos a preços acessíveis, dogão de um real, hippies vendendo artesanato, grandes turmas de “manos” que vinham de “longe”, era o centro nevrálgico da farra adolescente.
Aos 18 anos, voltei a cruzar os rio todos os dias rumo à universidade, ainda bebia preferencialmente na Vila Madalena e freqüentava muito a Paulista. Foi no tempo de faculdade que percebi que meus deslocamentos eram quase sempre através ou ao lado de Pinheiros, em mais de dez anos de São Paulo. Doutor Arnaldo, Teodoro, Cardeal, Rebouças, Heitor Penteado, Cerro Corá.
Já com 25, procurava apartamento fora do que chamei de Eixo de Pinheiros, tentei a Santa Cecília, terminei na Consolação. Trabalhava na Vila Mariana, bebia na Augusta, atingindo assim meu objetivo de não ter Pinheiros na rotina. Agora moro e trabalho na República, para cá do Minhocão (limite oposto ao Rio Pinheiros), e vivo 95% do tempo entre o Centro, a Paulista, Pinheiros e Perdizes.
Pinheiros é, de acordo com a divisão administrativa de São Paulo, um distrito que engloba os bairros de Pinheiros, Alto de Pinheiros, Itaim Bibi e Jardim Paulista. A divisão entre os bairros de uma cidade de crescimento descontrolado e pouca memória é uma eterna fonte de discordâncias e existem divisões que se sobrepõem às oficiais, pois dentro de Pinheiros (ou seria do alto de Pinheiros?) há a Vila Madalena, a Vila Ida, a Vila Beatriz e tantos outros bairros que existem como nome, como história e até como cultura (cada vez menos), ainda que a geografia tenha sido modificada ao longo do século. Não é preciso ser paulistano para saber o que é a Vila Madalena.
Olhando-se o mapa de bairros por IDH (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Mapa_IDH_cidade_de_S%C3%A3o_Paulo_Modificado.png), nota-se que o distrito de Pinheiros é uma fatia até grande da categoria “muito elevado”, o que certamente ajuda a entender o fenômeno. No entanto, mais do que um território desenvolvido e precisamente delimitado, a Grande Pinheiros é uma população que se relaciona em determinados espaços, geralmente concentrados em um pedaço da cidade, mas que se movem junto com sua população, inclusive para longe.
Tenho dois bons exemplos. Uma pesquisa de uma menina da antropologia urbana da USP sobre o “forró universitário” defende que o resgate relativamente recente do forró é fruto de uma fita encontrada em um bar em Caraíva ou Itaúnas (lugarzinhos de sonho no sul da Bahia/Espírito Santo, onde onde o gênero não tem raízes) por jovens paulistanos de classe média em férias. Itaúnas e Caraíva viraram moda, junto com o forró, o que resultou em montes de casas de forró na segunda metade da década de 90 em Pinheiros. Minha irmã, 7 anos mais velha, legítima representante da Grande Pinheiros (que imagina que no máximo duas pessoas separam cada grande-pinheirense), esteve por lá nessa época, então não é absurdo deduzir que estes jovens paulistanos fossem também grande-pinheirenses. O povo que ia pra Caraíva e Itaúnas era o povo que bebia na Vila Madalena, que estudava nas escolas “bacanas” da Grande Pinheiros. É notória na minha geração grande-pinheirense a apropriação de elementos culturais nordestinos, como o maracatu. Costumo dizer se tratar de expiação de culpa de uma classe média que chama de baiano o que julga de mau gosto. Maldade à parte, essa apropriação um elemento cultural de outro espaço e até de outro tempo, no caso do forró, teve um impacto considerável, praticamente criando um gênero chamado forró universitário, que não vou discutir por total falta de elementos e vontade.
O outro exemplo aconteceu comigo há uns 2 meses. Fui a Paris, onde me hospedei na casa de um casal de ex-colegas de faculdade, mas cuja relação na verdade era a moça ser amiga da minha amiga, tendo entrado no Oswald de Andrade assim que saí. Num dia fomos encontrar amigos deles e uma das moças era conhecida dos tempo de adolescência, tinha feito Vera Cruz, algo assim. No dia seguinte, fui com meu anfitrião jogar bola num clube público e, da turma de brasileiros, reconheci um cara que fez Santa Cruz na mesma época que eu (um ou dois anos acima) e fui reconhecido por outro que fez Escola da Vila (tb um ano mais velho) e que sei, meio que sempre soube embora nunca tenhamos sido amigos, que depois fez Equipe. Portanto as pessoas que eu encontro em Paris em 2011 são de certa forma as mesmas que eu poderia encontrar na Vila Madalena, em Caraíva, no Pouso da Cajaíba. É claro que encontrar determinada pessoa é uma coincidência, mas a rede de contatos determina a probabilidade de quem eu vou de fato encontrar e uma vez que as coincidências obedecem a algum padrão, pode-se inferir daí um sistema, um circuito, o fenômeno que chamo de Grande Pinheiros.
Fica definido então que a Província da Grande Pinheiros é uma rede de pessoas e ambientes que se relacionam entre si. Passemos então para os ambientes.
São vários os pontos de encontro da Província. No passado foram as escolas e suas festas, depois privilegiadamente bares e festas. Hoje, o bar que concentra a maior freqüência de grande-pinheirenses do meu círculo de conhecidos é a Mercearia São Pedro, tradicional mercearia/bar, que freqüentei muito entre 1997 e 2000, e ao longo foi se tornando cada vez mais cult, não sei se pelos bons sanduíches ou por algum outro motivo, e hoje se vai lá para encontrar alguém e se encontra mais umas 10 pessoas. A Festa do Santo Forte é outro evento capaz de reunir um facebook inteiro da Grande Pinheiros.
O centro da Província é evidentemente o bairro e Pinheiros, inscrito entre a Faria Lima, a Rebouças, a Dr. Arnaldo, a Sumaré, a Inácio Pereira da Rocha, a Pedroso de Morais e a Frederico Hermann Júnior. Apesar da importância histórica dos largos da Batata e de Pinheiros, a região mais próxima do centro da cidade e da boêmia Vila Madalena é hoje o lugar mais importante, acho que um bom marco zero seria o Pão de Açúcar da Mourato Coelho com a Teodoro (antigo Jumbo), onde todo mundo eventualmente tem que passar, tem ponto de ônibus e banco 24 horas mesmo. Outros pontos de interesse são a Praça Benedito Calixto, a esquina das ruas Cardeal Arcoverde e Teodoro Sampaio (paralelas qe se encontram, na geografia não-euclidiana de São Paulo), o bar Cu do Padre e um edifício de tijolinhos muito feio, que só eu reparo, na Teodoro com a Pedroso.
A Grande Pinheiros seria portanto o conjunto dos bairros em volta de Pinheiros, mas não é tão simples assim, porque diferentes pequenos centros atraem os bairros em seu entorno. O exemplo mais claro é o Itaim Bibi. Localizado entre Pinheiros, e os ricos Jardins e Moema, os “terrenos do Bibi” têm vida própria, muito comércio, bares, etc. O Itaim seria portanto o centro do Grande Itaim ou parte da Grande Moema, não sei identificar a predominância daqueles lados antipáticos da cidade.
Ao contrário do Itaim, onde só se vai quando alguém tem a infeliz idéia de marcar alguma coisa lá naqueles bares, a região da Paulista, vizinha, é freqüentada de bom grado. Embora tenha vida própria, é parte da vida dos grande-pinheirenses que muitas vezes preferem a Livraria Cultura do Conjunto Nacional à FNAC de Pinheiros, além de terem que ir ao cinema. É como algumas regiões reivindicadas por mais de um país, mas no nosso caso sem disputa – a Paulista é um território autônomo e parte da província, assim como parte de várias outras possíveis províncias. Perdizes tem status parecido. Localizado entre a Lapa, o Centro e Pinheiros, o bairro tem vida própria, mas sem a intensidade de um Itaim ou da Paulista. Por ser o bairro da PUC, certamente entra no circuito grande-pinheirense, assim como seus bairros satélites Sumaré, Pompéia e quetais.
A rua Augusta sofreu nos anos 2000 um evidente processo de vilamadalenização, paralelo, embora menos agressivo, à moemização da Vila Madalena. Com boa parte dos botecos do bairro boêmio tendo se tornado bares repugnantemente arrumadinhos, o ecletismo cosmopolita da Augusta acabou atraindo muitos grande-pinheirenses, como eu. A Praça Roosevelt com sua concentração de teatros e bares, e alguns outros lugares de grande importância cutural na cidade acabam puxando a fronteira da Província até o Centro, mas de maneira rarefeita. A Santa Cecília não é quase nada Grande Pinheiros, nem a República, a Consolação um pouco mais (até pela rua, antiga Estrada dos Pinheiros, que desemboca na Rebouças), a Bela Vista nem um pouco.
O Alto da Lapa é rico e dá as costas para seu nome, gravitando em torno de Pinheiros e ignorando o limite oficial com o Alto de Pinheiros, a rua Cerro Corá. A Vila Leopoldina, bairro da Escola Vera Cruz, também é parte do circuito, embora o Ceasa e a Marginal Tietê sejam pontos de contato com o resto do mundo. A Cidade Universitária, também dividida com os mais diferentes povos, é o principal território grande-pinheirense na margem esquerda do Rio Pinheiros, o que inclui alguns trechos do Butantã. Minha irmã que foi para Itaúnas lembrou que em sua graduação a FFLCH foi uma fuga do circuito viciado de pessoas, mas os amigos da Leste ou da Sul é que acabavam bebendo no território grande-pinheirense.
É claro que São Paulo é uma cidade gigante que permite e obriga o encontro com gente de todo lugar, com maior ou menor variedade dependendo da vida que se leva, dos lugares que se freqüenta, dos interesses que se tem. Existe toda uma vida fora da Grande Pinheiros, geográfica e socialmente, e os grande-pinheirenses sabem disso e a vivem em maior ou menor grau. Não há muitas dúvidas sobre o cosmopolitismo de São Paulo. Dentro dele, porém, cabem muito provincianismos.
E essa província específica é de certo modo o que entendo por casa. Não por algum orgulho burguesinho, mas por ser onde cresci, onde tenho meus conhecidos e os conhecidos de meus conhecidos e os conhecidos deles, que mais cedo ou mais tarde encontramos por aí ou deixamos de encontrar por mero acaso. Se diz muito que o mundo não é pequeno e sim a renda é que é mal distribuída. É fato. Uma amiga costuma se referir a esse emaranhado limitado de relações como “branco drama”, termo brilhante porque adaptado dos Racionais MCs e poucas coisas são tão grande-pinheirenses (pelo menos na minha geração) como se apropriar do contexto vizinho e distante da Zona Sul. Ou como diria o outro: “você sai de Pinheiros, mas a Grande Pinheiros não sai de você”.
Poxa… nem sei que parte eu gosto mais. Imperdível a reflexão!
Muito, muito bom, senhor. Imaginei que haveria fotos também… Vai ter sequência?
Muito bom! Li pela Elisa, que postou no facebook! Me identifiquei como “grande-pinheirense” e entusiasta em observar o bairro também!
Você ainda usa trema!!!
é tão verdade que a gente tá reproduzindo nosso “velho mundo” quase tin-tin-por-tin-tin aqui em barão geraldo.
Acho que o wordpress não me deixa responder individualmente, mas obrigado por terem lido esse lido esse texto enorme até o fim! Legal que tenham se visto na província, não sabia que Barão Geraldo é um posto avançado. Quando tiver post novo (não sei se volto ao tema, viu, pai?), aviso no twitter.
é realmente o bar mercearia é o reduto da pseudointelectualidade da Puc-Usp